O Trovador

Os fatos dizem o que aconteceu. O Trovador explica o que vem depois. Com Adolfo Sachsida

Os craques estão em campo, e as estrelas querem brilhar

Um presidente incompreendido e uma seleção de gênios: o que pode dar errado?

Por Adolfo Sachsida

Lula está preocupado com a reação do mercado. Como grande estadista que é, parece-lhe incompreensível que alguém tenha a mesquinhez de perguntar quanto custam suas boas intenções. Seria como interromper um banquete para lembrar que o açougueiro ainda não recebeu. Uma indelicadeza. Quase uma conspiração.

Afinal, não é gasto: é investimento. Não é rombo nas estatais: é um pequeno contratempo técnico-contábil, desses que se resolvem com uma nota explicativa e mais dinheiro do contribuinte. As contas públicas não têm déficit: têm excesso de generosidade. E a dívida não está em trajetória explosiva: está apenas crescendo à altura dos sonhos de nosso presidente.

O problema, naturalmente, são os rentistas. Essa gente de coração duro que, depois de emprestar dinheiro ao governo, desenvolve a extravagante pretensão de recebê-lo de volta.

Nosso estadista não compreende tamanha maldade. Ele oferece esperança; o mercado pede garantias. Ele anuncia o futuro; alguém pergunta pelo vencimento. É difícil governar um país onde ainda há quem insista em conferir a soma.

Mas Lula, cuja humildade só encontra rival na estima que tem por si mesmo, resolveu ouvir os especialistas. Convocou um firmamento de estrelas, todas prontas para iluminar o caminho — e, se necessário, explicar que a escuridão é apenas uma modalidade de luz ainda incompreendida pelo mercado.

Sejamos francos: desafio o leitor a encontrar onze nomes mais preparados para explicar o problema econômico a Lula do que Geraldo Alckmin, Dario Durigan, Miriam Belchior, Bruno Moretti, Esther Dweck, Aloizio Mercadante, Fernando Haddad, Guido Mantega, Luciano Coutinho, Eduardo Moreira e Laura Carvalho.

É uma seleção de talentos complementares. De um lado, a juventude de quem ainda não teve a oportunidade de testar suas ideias até as últimas consequências. De outro, a experiência de quem já as testou e conserva a admirável serenidade de atribuir as consequências a terceiros.

Uns chegam com a novidade das promessas. Outros, com a tradição das desculpas. Juntos, asseguram que nenhum erro do passado ficará privado de uma nova oportunidade.

O repertório econômico dessa seleção lembra aquela loja de R$ 1,99 que acabou falindo sob a direção de outra estrela, por ora fora da escalação. Uma ausência que precisa ser corrigida: quem já levou uma loja à falência não deveria ser privado da oportunidade de pensar o país. Na vitrine, o gasto público é anunciado como motor da prosperidade; na prateleira, o crédito dirigido promete escolher os vencedores — com o dinheiro de quem não foi consultado sobre a aposta. Ao fundo, permanece a velha certeza de que o Estado sabe gastar o dinheiro do contribuinte melhor do que ele próprio. Tudo cuidadosamente lustrado para que o freguês admire a mercadoria e não pergunte por que loja tão bela assim foi à falência.

No afã de colaborar, peço apenas ao nosso grande timoneiro que não restrinja a tripulação a esses onze heróis. Um navio dessa importância merece levar a bordo todos os especialistas capazes de explicar por que a água que entra pelo casco representa, na verdade, uma expansão da infraestrutura aquática.

É hora de dar oportunidade a novos talentos, como Mônica de Bolle e José Luis Oreiro. E por que não recorrer à experiência de Dilma Rousseff, Luiz Gonzaga Belluzzo e Luiz Carlos Bresser-Pereira? Seria um desperdício deixar no banco tanta disposição para ensinar ao país que a prosperidade começa assim que a realidade para de atrapalhar a teoria.

Com um elenco desses, nenhuma dificuldade ficará sem explicação. Para a inflação, haverá uma tese. Para o déficit, uma justificativa. Para o fracasso, um culpado.

Na casa do contribuinte, talvez falte alguma coisa à mesa. No salão das grandes ideias, porém, não faltará quem faça um discurso sobre a fartura.

O Brasil precisa dos craques. Está na hora de as estrelas brilharem.

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