Convicção sem credibilidade vira estridência. Credibilidade sem convicção vira diluição. Quem quiser vencer em 2030 precisa das duas.
Na eleição deste ano, circularam dois vídeos de economistas declarando voto em Lula. A reação imediata nas redes foi previsível: indignação de um lado, comemoração do outro. Mas quem pretende construir uma alternativa de poder não pode ficar na reação. Precisa perguntar o que esses vídeos revelam sobre a disputa política brasileira e o que exigem de nós nos próximos quatro anos.
O que os vídeos mostram
Primeiro, os fatos.
1. Quase ninguém defendeu a política econômica do governo. Os apoios vieram embalados em três palavras: democracia, soberania e programas sociais. Entre os signatários havia militantes, mas também profissionais de primeira linha. Divergir deles não exige negar suas qualificações, exige enfrentar seus argumentos.
2. O “contra o fascismo” é o roteiro de sempre. O PT usou a mesma narrativa contra José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e os dois Bolsonaro. Em 2014, a campanha de Dilma chegou a associar a proposta de autonomia do Banco Central, defendida por Marina Silva, a imagens de comida sumindo da mesa das famílias. Uma discussão institucional virou ameaça à subsistência. O adversário muda, a acusação não.
3. A esquerda sabe se unir. Economistas que brigam entre si em reuniões da CAPES e do CNPq se juntaram em torno de um candidato. As divergências teóricas ficaram para depois da eleição.
4. A academia é desigual. Professores de universidades de elite, públicas e privadas, declararam voto abertamente. Não há nisso ilegitimidade: é cidadania. Mas é difícil imaginar o mesmo vídeo, com a mesma naturalidade e o mesmo custo zero, do outro lado. Quem se declara de direita no meio acadêmico costuma pagar um preço que o colega de esquerda não paga.
Cinco lições
Primeira: o adversário escolhe o espantalho, não o que somos. Não importa quão moderado seja o candidato, ele será acusado de ameaçar a democracia e os mais pobres. Fugir da acusação adotando a agenda do outro lado não funciona: a esquerda sempre prefere o original à cópia. Foi a aposta de várias campanhas e o resultado foi uma sequência de derrotas. Aécio perdeu para Dilma em 2014, num ano em que a economia já se deteriorava. Em 2018, a candidatura foi nítida nos valores e na sinalização de liberdade econômica, e venceu.
Seria erro, porém, transformar 2018 em fórmula. Segurança pública, rejeição ao sistema político e o momento econômico pesaram tanto quanto a identidade do candidato. A lição é mais estreita e mais sólida: ninguém ganha a confiança do eleitor escondendo o que pensa.
Segunda: o eleitor de centro não é um ponto no meio do espectro. A teoria do eleitor mediano sugere que se vença deslocando-se ao centro. Na prática, o eleitor mediano vota em quem lhe parece capaz de proteger sua renda, seu emprego e a escola do filho. Ele não quer um candidato que concorde um pouco com todos, quer um candidato que explique por que a sua agenda é a melhor para a sua família. Isso exige convicção e, principalmente, credibilidade. Dialogar com o centro é indispensável, mas diluir o programa para agradá-lo desperdiça justamente o ativo que o conquistaria.
Terceira: democracia, soberania e proteção social não têm dono. São compromissos nacionais. Se a direita cede esses três termos como patrimônio exclusivo da esquerda, perde a disputa antes de começar. Cabe a nós preenchê-los com conteúdo próprio:
- Democracia é respeito à Constituição, limites ao poder, alternância de governo e liberdade para todos, inclusive para os adversários.
- Soberania é segurança pública, capacidade econômica, tecnológica e institucional, e não apenas discurso. País endividado, pouco produtivo e dependente é país menos soberano. País onde facções criminosas controlam o território não é soberano.
- Proteção aos mais pobres é rede de amparo para quem precisa e oportunidade para que cada pessoa conquiste autonomia. Responsabilidade fiscal é parte dessa proteção, porque inflação e juros altos são os impostos mais regressivos que existem.
Quarta: coalizão se constrói antes da eleição. A esquerda mostrou que diferenças teóricas cabem dentro de um projeto comum. Conservadores e liberais ainda tratam divergências como traições. Uma coalizão madura define prioridades, estabelece compromissos e cria mecanismos para resolver conflitos. Disputas pessoais permanentes consomem a energia que deveria ir para a formulação de soluções. Quem aspira governar precisa demonstrar que sabe construir antes de pedir autoridade para decidir.
Quinta: a eleição se decide na cultura e na educação. Qualquer projeto de longo prazo que ignore as universidades, as escolas e a produção de ideias está construindo sobre areia. O que está em jogo não é doutrinação em abstrato, mas um princípio institucional: professores e estudantes devem poder divergir sem intimidação, discriminação ou prejuízo acadêmico, seja qual for sua corrente. Esse princípio protege todos, e sua defesa será mais convincente quanto mais coerente for sua aplicação.
Reformas duradouras dependem de uma sociedade que entenda seus fundamentos: que o equilíbrio das contas é condição para preservar serviços, que produtividade é a base do salário que cresce, que liberdade econômica significa poder trabalhar, empreender e prosperar. Mais importante do que qualquer pauta econômica é ter gerações que compreendam por que as pautas econômicas e conservadoras importam. Uma sociedade que acredita que o Estado é a resposta para tudo abre mão, aos poucos, de sua liberdade.
O que fazer entre agora e 2030
O período entre eleições não é intervalo, é a fase em que se constrói a capacidade de governo. Quatro frentes, em paralelo:
- Programa. Propostas detalhadas, com custos reconhecidos, cronograma e mecanismos de execução. Reforma anunciada sem plano de implementação vira munição para o adversário.
- Quadros. Equipes formadas e testadas, com presença no debate público muito antes da campanha. Credibilidade não se improvisa em 45 dias de propaganda.
- Narrativa. Uma explicação do país, de seus problemas e de seu futuro, que traduza o conhecimento técnico numa promessa compreensível. Quem não define o significado de suas propostas deixa que o adversário o faça, como em 2014.
- Formação. Investimento em professores, pesquisadores, autores e lideranças capazes de sustentar o debate público com profundidade, apoiando a excelência e submetendo as ideias ao escrutínio público.
O candidato de 2030
Precisaremos de uma liderança que entenda a gravidade das restrições fiscais, a urgência de elevar a produtividade e a obrigação moral de ampliar oportunidades. Que trate as instituições com respeito e as dificuldades da população com seriedade. E que não entre na disputa achando que dá para vencer a esquerda defendendo pautas de esquerda, ou que basta a promessa de uma economia liberal para compensar a ausência de convicção. Esse candidato terá perdido antes de a campanha começar.
Famílias querem segurança, renda, serviços que funcionem e perspectivas para seus filhos. Nossa tarefa é mostrar, com clareza, serenidade e coragem, como nossos princípios respondem a essas necessidades.
O Brasil precisa de uma alternativa que mereça confiança antes de receber o poder: firmeza para sustentar seu rumo, prudência para reconhecer limites e grandeza para governar para todos.
É essa a responsabilidade que deve orientar nosso trabalho até 2030.
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